• Lucas M Esher

32 Maneiras de Vasculhar o Interior de um Artista – Parte 2



Olá, Escrileitores,


Se você comparar a data de publicação da primeira parte desta série de textos e o post atual, descobrirá um buraco com mais de dois meses de tamanho.


… Péssima frequência para um blog iniciante, certo?


O mais importante, contudo, é a demonstração de que fui dominado pelo Guardião do Limiar (de novo!). Ou seja: nesses dois meses, eu mesmo caí em várias das armadilhas que investigo aqui.


… Porque eu sou um cego.


Agora, ao contrário do que pode parecer – quando se pensa nesse intervalo monstruoso –, não fiquei deitado numa rede com os pés para cima. Eu escrevi todos os dias.


Por mais de um mês, dediquei-me a explorar a armadilha da ocupação (a primeira da listagem abaixo). Escrevi um bocado sobre ela. Pensei muito, pesquisei, juntei material... Eu não queria escrever qualquer coisa, compartilhar algo simplório, vago.


Resultado: me vi diante de um texto com mais de setenta páginas. Isso mesmo que você leu: 70 páginas. E eu estava falando de apenas uma dentre as 32 maneiras de vasculhar o interior de um artista que pretendo propor.


… Agora, sejamos sinceros: você leria setenta páginas num blog?


Nem eu.


Foi uma lição.


Uma lição de que eu estava me levando muito a sério. Dentro da minha cabeça, sem perceber, acabei assumindo o papel de otoridade. Eu me vi como alguém que tinha algo muito sério e importante para falar. E, nessa bobagem, eu me ocupei.


Por um mês eu me ocupei (o segundo mês foi dedicado a descobrir um jeito de fazer este texto acontecer).


E, veja: não é que o conteúdo das 70 páginas esteja ruim. Ele não vai para o lixo. Gostei de muita coisa que encontrei, vasculhando nele. Só que isso aqui é um blog. Não comporta setenta páginas numa postagem.


Estas linhas me pedem simplicidade.


Por isso resolvi dar um passo atrás.


Não era hora de me aprofundar tanto em cada uma das 32 maneiras de vasculhar o interior de um artista.


Vamos com calma. Arranhemos cada superfície primeiro. Pensemos na casca, possibilitando que cada um saboreie seu próprio fruto.


Com o tempo, se fizer sentido, descobriremos outras formas de avançar nessa estrada. E o faremos de forma orgânica e sustentável.


… Para mim, um livro, quem sabe? Um curso?


Não sei. Não sei mesmo.


A ideia – da qual precisei me recordar – é que estamos, aqui, criando um campo de exploração. Não tenho a pretensão de alcançar respostas; muito menos respostas definitivas. Estou vasculhando, me libertando da pressão de ter que acertar e ponto.


… Às vezes, um blog é só um blog.


E tudo bem.


Aqui vão, então, 10 armadilhas (e caminhos) que nos permitem vasculhar nossos tesouros interiores. Nos próximos posts mando mais 11 e depois mais 11.


Vale dizer que a ordem e a numeração escolhidas não são aleatórias – embora não exista um compromisso, por ora, com a precisão (um dia falo mais sobre isso também).




32 – OCUPAÇÃO


Como disse, foi nesta armadilha que mergulhei por um mês. Resolvi começar por ela porque enxerguei na ocupação uma espécie de receptáculo ou base, para onde todas as outras 31 maneiras convergem. Se montássemos um esquema ilustrativo dos 32 caminhos (como o da figura acima ou ao lado, depende de onde estiver lendo), a ocupação estaria no extremo inferior, na última bolinha, acumulando tudo o que escorre das outras esferas e retas.


Nós vivemos num mundo cuja configuração atual faz de tudo para nos manter ocupados. Sempre temos algo para fazer, por fazer, exigindo nossa atenção. Temos casas, empregos, estudos, burocracias, impostos, boletos, relacionamentos tóxicos e por aí

vai, até o infinito e além.


Tudo pode ser uma fonte de ocupação. Tudo pode se transformar num aliado do status quo, para nos impedir de atravessar a muralha e alcançar nossos tesouros.



(Cena do filme 'Matrix'. Se preferir a versão dublada: https://youtu.be/Z9CbuUQAdBY)



A armadilha da ocupação prospera quando permitimos que a rotina sugue nossa energia. Nos tornamos pessoas apressadas, sempre correndo atrás de compromissos vazios. Sobrevivemos apagando incêndios, sem tempo para alimentarmos nosso próprio fogo interior. Precisamos de tutu; não temos tempo para viajar, sonhar, viver de forma mais artística. Precisamos colocar comida na mesa. Precisamos nos manter em pé, aquecidos, famintos, sedentos, trabalhando.


No mundo dos ocupados, nós somos ticadores de listas. Fiz isso, fiz aquilo, ainda não fiz aquilo outro, droga.


E as caixinhas para ticar nunca acabam. Nunca.


A ocupação nos torna seres ansiosos, irritados, estressados, barulhentos, exaustos. Consumimos tudo em embalagens prontas, práticas, pré-cozidas. Somos viciados em mergulhar de cabeça nas inatingíveis ondas das exigências externas. Não temos tempo de olhar para dentro, de cuidarmos de nós mesmos.


Estamos num avião em pane, chacoalhando horrores o tempo todo. Máscaras de oxigênio caem, e o que fazemos? Colocamos primeiro na nossa casa, no nosso trabalho, nos boletos – em tudo, menos em nós mesmos.


Porque, oras, o significativo pode esperar, ficar em segundo plano. Eu amo escrever? Ótimo, que bom que eu descobri isso. Parabéns. Agora cala a boca e trabalha. Você pode fazer arte nos intervalos, por uns cinco minutinhos, depois de executar aquela tarefa maçante que dá dinheiro – e antes de cuidar da casa, dar atenção para as pessoas que ama.


No mundo dos ocupados, eu dedico meu tempo e o melhor da minha energia para não escrever, para não viver minha arte.


Arte é hobby. É diversão. É luxo.



“A gente não quer só comida.

A gente quer comida, diversão e arte.”

Titãs

(Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer, Sérgio Britto)



Da mesma forma que tudo pode ser uma fonte de ocupação, também pode não ser.


Porque depende.


Minha família pode ser uma fonte inesgotável de desfrute da vida. Meu trabalho pode ser um chamado desafiador para me colocar no mundo, sem ser tragado por ele (feito uma bituca de cigarro).


… Depende do que você faz com o tempo que lhe é dado, Frodo.




31 – ENTORPECIMENTO


Anda de mãos dadas com a ocupação pela estrada de paralelepípedos cinza. Se a ocupação nos desgasta, o entorpecimento é a tentativa (vã) de relaxamento alienador.


De tão cansados que estamos, vivendo num mundo ocupado, engolindo um sapo atrás do outro, nos metemos no sofá e maratonamos uma série. A última coisa que eu quero fazer, agora, é pensar em qualquer coisa. Já fiz o que exigiam de mim (hoje; amanhã tem mais). Só quero ficar aqui largado, morgando. Derretendo meu cérebro. Ou congelando-o, com um pote de sorvete.


O Entorpecimento é o mundo dos Zumbis. São as diversões pautadas em prazeres fugazes. É o saco de batatinha frita, que engolimos sem mastigar, sem pensar, cheio de óleo, realçador de sabor, sódio.


É o álcool para embriagar a mente, afastando toda e qualquer forma de sofrimento e desprazer. São as drogas mais pesadas (sejam elas receitadas e vendidas em farmácias, ou em becos escuros, na surdina). É o cigarro que acalma. A masturbação, a pornografia. São as redes sociais.


A armadilha do Entorpecimento é aquela que nos faz buscar alívios imediatos, atalhos milagrosos, embotando nossos sentidos e faculdades de conhecimento. Queremos fechar os olhos para a realidade, pois esta se tornou dura, insustentável. Somos Sísifo.


… E a gente só se _______.


Queremos deixar o tempo passar, a vida nos levar, sem esforço.


Claro que, de novo, nenhum dos caminhos aqui citados é um trilho de mão única. Nada é entorpecente por si só, exclusivamente. Tudo depende do uso que fazemos da ferramenta.


A comida pode ser, por exemplo, um vício, uma fuga, como também uma expressão criativa e artística. Pode ser o prato de domingo feito com todo amor pela minha vó, meu vô. Pode ser a invenção revolucionária de um masterchef, num restaurante com três estrelas Michelin. E pode ser o fastfood, no qual nos atolamos — onde somos apenas consumidores consumidos pela comida que comemos.


Estamos nos entorpecendo quando a fonte do nosso (suposto) relaxamento é estéril. Uma batata frita é muito gostosa na boca, mas não fornece muitos nutrientes nem energia para o corpo. Deixa, sim, um rastro gorduroso, que dificultará ainda mais nossa movimentação. Reduzirá as chances e motivações para agirmos, para superarmos barreiras e extrapolarmos a mesmice.





Nos entorpecemos porque é fácil. Tá na mão. Entorpecimentos abundam, porque num mundo preocupado (e ocupado) em ganhar dinheiro, criar um produto viciante é recompensador. É uma meta, uma mina de ouro.


… O ouro cujo brilho se apaga tão logo o seguramos – o ouro que nos transforma em caçadores de recompensas (vazias).


Esperamos os fogos de artifício que alguém prometeu soltar, na hora da virada, e nunca observamos as estrelas que existem todos os dias, no céu.




30 – PROCRASTINAÇÃO


Bom, esse tópico vai ficar para amanhã...




29 – DESISTÊNCIA


São os construtores de castelinhos de areia. A arte pode ser efêmera. Pode, sim, ter um efeito visível breve, fugaz – os escultores que trabalham na praia que o digam. Porém, a desistência é o extremo inoperante disso. Desistentes são seres que abandonam seus projetos antes da conclusão, impedindo-os de ganharem uma forma significativa.


Eles se dedicam a criar algo, e logo se cansam. Cansam de brincar com aquelas ferramentas. De trabalhar a mesma linguagem, de novo e de novo.


Desistentes começam a escrever um livro e param no meio. Ou terminam a primeira versão, e nunca reescrevem. Ou reescrevem, e nunca revisam, nunca lançam no mundo.


Desistentes caminham em ziguezague. Pulam de galho em galho.


Eles caminham, e isso é bacana – mas só até certo ponto. Cedo ou tarde, chega uma tarefa mais chata, menos prazerosa, que eles não estão dispostos a aturar. Sob a desculpa de que são pessoas curiosas, multitarefa, eles nunca insistem em nada. Nunca se aprofundam. Vêm e vão. Recolhem suas âncoras e se põem a remar, noutra direção, onde a brisa sopra mais agradável.


Podem existir inúmeras razões para a desistência. E eu desisti de elencá-las aqui (¬¬).


Desistentes nunca se dedicam tempo suficiente para causar uma transformação (interna e externa). São fogo de palha, pavio curto.


Se o jardim é reconhecido por suas flores e perfumes, o desistente tem um campo cheio de buracos cavoucados para oferecer. E as sementes? Sei lá, ele jogou para cima, torcendo que alguma coisa vingue.


… E não vinga.


A desistência, na sua contraparte mais luminosa, traz à tona o caminho da perseverança. Do desenvolvimento acalentado pela dedicação. É o lado agregador da disciplina. É a possibilidade de foco, de diligência. Eis algumas das múltiplas possibilidades encontradas do outro lado do muro. Ou na caminhada até lá.


Outra opção, menos difundida, é o abraço da multidisciplinaridade. É cultivar uma espécie de poliamor, polivalente.


Se o amor por múltiplas áreas for utilizado como um caminho para transpor os muros do condicionamento, aí já é outra história. Aí podemos entrar em contato com uma fonte restauradora, extremamente dinâmica e que se retroalimenta, onde especialistas (falaremos deles no número 18) também podem vir se banhar. E aprender.


Porque, sim, ao nos libertarmos de amarras e prisões (interiores e exteriores), é possível nos depararmos com a disposição em nutrir amores múltiplos. A questão é entender como fazê-lo. Como alimentar esses amores, de fato, ao invés de deixar que o fogo da paixão passageira consuma tudo.


É, uma vez mais, a busca por técnica, por rigor – e não fórmulas mágicas.


Ninguém está te impedindo de ser o próximo Leonardo Da Vinci – exceto você mesmo. Não adianta saber que você é multitalentoso. É preciso plantar suas sementes na terra. Compartilhar seus frutos com o mundo.


(Eu, por exemplo, amo a literatura, o teatro, os encontros e trocas individuais de autoconhecimento, a arte-educação... Descobri que posso alimentá-los todos, focando às vezes mais em um, depois mais em outro. Às vezes em dois, três ou nos quatro ao mesmo tempo... Tudo depende do momento, espaço e de quem está envolvido).




28 – COMPARAÇÃO


Muitos artistas padecem desse mal. Queremos criar nossa arte, queremos viver dela. E é comum que, para alcançarmos esse feito, procuremos olhar para os lados, em busca de referências, de exemplos de quem já conseguiu. Podemos aprender, de fato, um bocado com pessoas admiráveis. E, por outro lado, podemos cair na armadilha da comparação, de querermos nos medir pela régua alheia. Podemos inventar fórmulas e tentar replicá-las custe o que custar.


No segundo caso, acabamos por nos maltratar. Ao invés de sermos artistas que expressam suas singularidades, nos tornamos arremedos de outros. Cópias cubistas de Picasso. Escritores de fantasia aficcionados por Harry Potter, querendo viver no mundo que a J. K. Rowling inventou.


… Nós esquecemos de que toda história é única.


Ter um ponto de referência é bom. Ficar orbitando ao redor dele, nem tanto.



“Todo homem e toda mulher é uma Estrela.”

(Aleister Crowley)



Todos nós nascemos mudas. Mudas admiram grandes árvores, imponentes. O que mudas não precisam fazer é pressionar cada um de seus galhos para seguir o mesmo caminho dos galhos daquela árvore centenária.


Por sorte, mudas nem têm poder para tanto.


Mudas (e cegos) não devem deixar que as (supostas) grandes árvores moldem ou cortem suas ramificações. Se tiver que chegar alto, ser uma grande árvore, só existe um caminho para isso.


… E você precisa inventá-lo.


Precisa crescer o seu crescimento. Com ajuda, muitas vezes. Mas sempre se responsabilizando pelos seus próprios atos.


O que frequentemente acontece é que as mudas se desestimulam, comparando seus dotes – seus corpinhos ainda estabanados – com o das grandes árvores. E desistem. Passam a acreditar que nunca serão árvores.


Frustradas, elas deduzem que, se realmente quiserem chegar ao topo, elas precisem entrar num desses prédios cinzentos e tomar um elevador, todos os dias. Assim, finalmente, elas vão conseguir subir na vida.


… E, olha só, nem dói: basta apertar um botão.


O que a mudinha não percebe é que aquele não é seu habitat natural. Mudinhas não se transformam em árvores – não tão grandes quanto poderiam ser – quando limitam o espaço de crescimento, cercando-se de um estreito vaso.





Muitas vezes, fazemos tudo isso com a melhor das intenções. Buscamos, humilde e inocentemente, por experiência, conhecimento e/ou apoio. Acabamos nos desestimulando, nos diminuindo. Comparamos romãs com abobrinhas. Aprendemos, pouco a pouco, a alimentar uma mentalidade combativa, bélica. Criamos competições inexistentes, descabidas tanto quanto vorazes e insalubres.


Até onde sei, a competição pode levar além, sim. Posso utilizá-la como desafio. Posso desfrutá-la como técnica e combustível interno. Se descambo para a rivalidade, me perdi. O único vencedor, na disputa entre quem é melhor, é o Guardião. O seu, o meu, não importa...


Estamos à procura da singularidade aqui. Não devemos fechar os olhos para o mundo, porém, deixemos a grama do vizinho em paz.


Não comparemos nossos rascunhos com as grandes obras-primas, dos grandes mestres de outrora. É injusto. Não faz o menor sentido. Porque nós não sabemos toda a história deles. Não temos como saber o que fizeram ou deixaram de fazer antes de colocar cada vírgula em suas páginas. Não sabemos o que sentiram, pensaram, como experimentaram seus mundos. Não sabemos nem qual mundo era aquele…


… Porque toda história é única.


O mundo que eu vejo não é o mundo que você vê.


Busquemos inspiração, portanto, nos feitos e no brilho de outros tesouros. Não queiramos agarrá-los ou tomá-los como nossas posses. A ideia de que conseguiremos capturá-los é ilusória, um truque de prestidigitação do Guardião do Limiar. Eis, possivelmente, o caminho para que nos tornemos posses empossadas.


Não sejamos gananciosos. Não nos pressionemos a fazer igual a alguém. Não nos cobremos maestria logo nos primeiros passos.


… Se vier, a maestria crescerá por caminhos que nenhum de nós consegue enxergar, hoje, limitados como estamos por nossos vasos estreitos.


Encontremos o caminho que queremos e precisamos fazer, realmente. Criemos nossos próprios jardins. Ou florestas. Ou hortas. Ou montanhas. Ou mares, praias, prédios, campos de futebol, o que for...




27 – APARÊNCIAS


Aconteceu outro dia comigo. No meio de um lugar ermo, um casal chegou na beira de uma cachoeira, posou, tirou fotos e... pronto. Foi embora.


Eles não tiraram os olhos do celular. Não chegaram a ver a cachoeira fora do enquadramento daquela telinha.


E eu já vi isso acontecer várias vezes. Em cachoeiras, museus, shows…


Acontece também quando alguém escolhe um livro porque a capa é mais bonita. Quando alguém bate o olho num post da internet e, sem nem ler, já emite opiniões. Nós nos conformamos com a superficialidade. Mordiscamos apenas a casca. Visitamos lugares porque temos que visitar. Porque disseram que era importante. Era bonito. Imperdível. E nós fomos. Fomos para parecermos mais isso, mais aquilo. Menos aquilo outro.


… O mundo das aparências é aquele em que jogamos para cumprir tabela.


Fazemos para mostrar, e não porque verdadeiramente queremos fazer aquilo. Fazemos porque outros verão que fizemos. E o verão passa e eu nem curti a praia. Perdi meu tempo tirando fotos, preocupado com meu cabelo, meu bronze, minha marquinha, minha vaidade.


Compramos algo porque a propaganda é a alma do negócio. Comemos com os olhos. Acreditamos numa beleza que só existe à base de cosméticos. Assumimos que fulaninho é autoridade no assunto porque usa jaleco branco no vídeo.


… O mundo das aparências é aquele em que você não precisa ser, só parecer.


(Até parece).


Eis mais um atalho que nossos cérebros e cultura tomam.


Nas redes sociais (mas não só por causa delas), já não adianta ser artista. Não adianta se dedicar a criar obras de arte. Você tem de parecer artista – e aparecer. Tem de criar uma base de seguidores, consumidores em potencial.


Veja, não estou reclamando. Essa é a dinâmica estabelecida. Pode servir para o bem e para o mal – e para algo que está além do bem e do mal.


Há muitas possibilidades que se abrem graças a isso também. Graças a esses mesmos meios de comunicação, eu posso ser um artista e não depender de ninguém. E me comunicar diretamente com meu público. Ótimo!


A armadilha nos envolve quando nos tornamos servos de um mundo maquiado, que ensina truques sobre como enfiar livros mal escritos goela abaixo de leitores catequizados. Focamos tanto em querer fazer algo parecer e aparecer, vendendo muito, fazendo um seis em sete, que nem nos atentamos para os movimentos internos. Nem observamos o caminho que trilhamos, aqui dentro. Passamos pela cachoeira e nem tchum.


O Guardião do Limiar é o grande mecenas dos Mantenedores de Aparências.


… Para que aprender a cozinhar, se você pode comprar o bolo pronto e tirar uma foto, segurando a cereja?


Quando nos preocupamos apenas em parecer, deixamos a arte que existe em tudo escapar por entre nossos dedos. Eu me limito a assistir o grande chef de cozinha no programa de TV. É mais fácil segurar o controle remoto do que colocar a mão na massa – porque ela é grudenta e faz uma baita sujeira.


Enganamos outros com aparências. Enganamos a nós mesmos – e nos enganamos achando que não dá para se enganar.


Somos lindos e mimados.


… Mas será que somos verdadeiramente belos?




26 – FAMA + FORTUNA = PODER


BFF da armadilha das aparências. É a pessoa que sonha em ser artista não por amor à arte, e sim por desejar fama, fortuna e todas as benesses que o reconhecimento (supostamente) traz.


É a fórmula (infalível?) de acrescentar fama à minha rotina, temperar com fortuna e, assim, adquirir o poder necessário para impor minhas vontades ao mundo. Eu deixo de ser um Zé Ruela, que só obedece às ordens do sistema vigente, e passo a ser um dos manda-chuvas.


… Ou é nisso que eu gosto de acreditar.


No meu curso de teatro, vi muitos rostinhos bonitos nada preocupados em aprender a linguagem teatral. O que eles queriam era estourar na TV, ser a próxima estrela de malhação.


Eu escrevo porque quero ver meu nome estampado na vitrine de uma livraria. Porque quero cruzar com alguém, no ônibus, lendo meu livro (se é que eu vou pegar ônibus ainda). Eu escrevo porque quero que todo mundo saiba que sou escritor. Quero status, quero ter milhões de fãs, bilhões de reais na conta.


Na melhor das intenções, acredito que, quando for famoso, terei, enfim, liberdade para fazer o que quiser. Quando eu for famoso, vou poder escrever o tempo todo. E eu vou escrever apenas o que me der na telha. As pessoas vão ter que me engolir.


… Será?


Será que não existem trocentos zilhões de haters pendurados nas redes sociais, prontos para avacalhar tudo que não sair exatamente do jeito que eles esperam? Será que, se você for famoso, Lucas, as pessoas não ficarão no seu pé, clamando por atenção? Será que não terá mais pressão para fazer o que ama fazer? Será que não terá de aguentar um editor no seu pé, pedindo um novo livro, implorando que siga a fórmula do que já está fazendo sucesso, ao invés de querer inovar?


Será que meu público-alvo não vai esperar que eu escreva sempre no mesmo gênero? Será que eu vou conseguir passar todo meu tempo escrevendo? Será que não encontrarei vários outros motivos para estar… ocupado?



“Seja implacável sobre seus dias de escrita. Não atenda às infinitas solicitações de reuniões essenciais e urgentes nesses dias. O engraçado é que, embora escrever tenha sido meu trabalho real há vários anos, ainda pareço ter que lutar por tempo para fazê-lo. Algumas pessoas parecem não entender que eu ainda tenho que me sentar em paz e escrever os livros, aparentemente acreditando que eles surgem como cogumelos, sem a minha conivência.”

(J. K. Rowling)



A fama oferece visibilidade e tem seus benefícios, sim. Portas se abrem. Porém, óbvio, outras se fecham (a da sua casa?). Talvez seja mais difícil do que pensamos inovar diante da fama. Talvez exista uma razão para muitos escritores consagrados insistirem no que já funcionou.


… Talvez, inclusive, a fama, como qualquer outro entorpecente, vicie.


A ideia, portanto, de que a fama e a fortuna nos darão poder é no mínimo questionável. Que tipo de poder é esse, afinal? É uma busca por controle? Controle do quê? Do meu destino? Será que eu realmente quero isso? Quero planejar minha vida inteira, me transformar numa marionete de mim mesmo – ou do mercado?


… Por que, se eu for planejar minha própria vida, hoje, serei eu – minha singularidade – o planejador ou será o meu Guardião?


De novo: não estou sendo idealista em dizer que poder e dinheiro são grandes vilões. Apenas são recursos criados pelo sistema sócio-cultural, econômico-financeiro e mercadológico vigente. Pode-se fazer grandes usos dessa responsabilidade, Peter Parker, ou pode-se meter os pés pelas mãos (e acabar amarrado num canto).



Tio Ben e o Homem-Aranha por Lee Garbett


A fama pode vir. O que não quero é idealizá-la. Nem ela nem a fortuna e o (suposto) poder. De uma forma ou de outra, isso tudo pode acontecer. Pode ser uma consequência inevitável do trabalho bem feito, das horas de dedicação para construirmos nossos mundos e nos autolapidarmos. Desenvolvemos técnicas e domínio de linguagem, e isso acaba atraindo olhares. O importante é que o trabalho interno e externo está sendo feito. O que vier depois é lucro (às vezes dívida).



“Faz parte do meu show, meu amor”

(Cazuza e Renato Ladeira)




25 – ROMANTIZAÇÃO


… A vida de artista é linda, glamourosa, cheia de tapetes vermelhos.


… Os escritores ganham a vida trabalhando umas três horas por dia.


… Eles é que sabem se divertir: não trabalham, criam histórias.


Aqui está a alma gêmea da fórmula fama + fortuna = poder.


A armadilha da romantização é aquela que nos permite ver apenas o lado meio cheio do copo – mesmo se o copo estiver preenchido com veneno.


Quero escrever porque a vida de escritor é cheia de glamour, festas chiques, dar palestras, fazer noites de autógrafo, ter papos-cabeça, pessoas chiliquentas gritando meu nome...


A romantização nos faz idealizar a vida de um artista. Faz com que nos apaixonemos cegamente por aquilo que acreditamos que eles vivem. Criamos uma comédia romântica nas nossas mentes, daquelas bem tosquinhas e nada simbólicas.


Fantasiamos, nos iludimos, esquecendo tudo o que é preciso fazer, de fato, para colocar nossas artes no mundo. Para, genuinamente, nos tornarmos o artista que já somos (além das muralhas do Guardião).


Simbolicamente, eu posso ser a princesa no alto da torre do meu castelo. Eu sou, também, o dragão que me impede de chegar lá – o Guardião das muralhas. E eu sou o cavaleiro empunhando a espada. Eu sou a batalha e o tesouro. Eu sou a jornada inteira.


… Eu sou, você é, todos os homens são, todas as mulheres são (por isso é simbólico).


No vício da romantização, muitas vezes, acabamos nos anulando, nos moldando a outros, acreditando que alguém virá nos salvar. Acreditamos em atalhos, em promessas vazias (cursos mirabolantes, pagamentos absurdos para transformar nosso trabalho em livro físico etc.).


Acreditamos que alguém (um editor, um agente, um leitor) descobrirá o quão maravilhosos somos e nos resgatará do alto da torre.


E ninguém vem. Ninguém virá.


… E se vier, esqueça: não é o príncipe encantado.


Porque ninguém me salva sem que eu me salve (das garras do Guardião acomodado). Eu não sou a princesa e o outro meu cavaleiro, minha metade da laranja.


Não.


Somos uma história inteira. Não existe só o tapete vermelho. Só a glória. Todo dia é, analogicamente, uma batalha. E uma festa. E tudo que eu quiser que seja.


Eu não corto o copo pela metade, só para fingir que está cheio. Eu olho a parte vazia também. E tudo bem. Vejo nela a possibilidade de extrapolar o patamar onde estou hoje.


Por isso, digo aqui uma frase perigosíssima: a arte não salva. Porque, amado Escrileitor, a arte não salva ninguém. Ela, por si só, não faz milagres. Ela é um campo. Você é que trabalha se trabalhando nela. Você é que se salva, salvando ela.


… Porque eu não colho louros se plantei tomates.




24 – VITIMISMO


Artista sofre. Somos um bando de injustiçados. Somos alvo de indiferença, falta de apoio, preconceito, desvalorização, conservadorismo. Ao contrário do que pensam os românticos, vida de artista é osso. A arte é destratada pelos ignorantes todos os dias. Esse país, minha gente, não tem jeito. O povo não tem cultura. É triste…


… E nós somos as grandes vítimas.


Vitimismo é isso: sentimos pena de nós mesmos. Somos vítimas das circunstâncias que nos rodeiam.


Antes de continuar, gostaria de deixar uma coisa bem clara: a vítima das circunstâncias NÃO É a vítima de uma violência. A vítima das circunstâncias (de que falo aqui) não sofre nenhum dano direto, direcionado, específico; ela se (des)ilude com as macrotragédias do nosso mundo – que existem! – e se sente imobilizada. Ela passa a se sentir perseguida, uma pobre coitada. Ou seja: a ideia deste tópico NÃO É, de maneira alguma, culpar a vítima por qualquer agressão sofrida. Existem vítimas dos mais variados tipos de violência e esse é outro tipo de situação, completamente diferente, que não tem nada a ver com o assunto aqui abordado.


Voltando...


Eu não estou dizendo que as coisas ditas no primeiro parágrafo deste tópico são falsas. Elas podem ser verdade (e podem não ser). O problema desta armadilha é quando abraçamos o rótulo de mártir. Quando choramingamos sem parar. Quando fazemos birra com o mundo, porque ele teima em não ser gentil com a gente.


Muitas vezes, nós, vítimas das circunstâncias, reclamamos e ponto. Sequer dedicamos algum tempo para avaliar o que é que, de fato, nós queremos. O que consideramos, por exemplo, ser gentil com a gente? Como gostaríamos que o mundo e as pessoas nos tratassem? Como as tratamos?


Porque, não, de novo e de novo: eu não nego a existência de injustiças. Elas existem. Aos montes. A questão do vitimismo é se tornar refém das próprias crenças. É atar as próprias mãos e sair acusando outros de serem nossos sequestradores.


Sem perceber, a vítima das circunstâncias aceita e adota a posição de inferioridade que – diz ela – lhe foi atribuída. Ela assume o papel de vítima das circunstâncias para poder dizer tá vendo? Eu não disse que era vítima.


A vítima das circunstâncias lasca a própria vida. Ela escolhe não agir, não salvar nada nem ninguém – a começar por ela mesma. Ao invés de fazer arte, ela fica parada, jogada no chão, esperneando, reclamando, se lamentando.


Se a romantização é o endeusamento cegueta, o vitimismo é a contraparte melancólica e rabugenta. Acreditamos que o sistema é injusto e incontornável. E não adianta fazer nada, porque ele vai quebrar nossas pernas. Então é melhor nem tentar. É melhor desistir logo de cara.


Artistas, caro Escrileitor, costumam ser seres sensíveis. Machuca, sim, e muito, várias coisas que rolam nos bastidores do palco mundial. Existe, sim, muita agressão do outro lado. E eu não defendo que as ignoremos. Não defendo que tratemos como faz parte do jogo, a vida não é mole para ninguém. Uma vez mais, só para não esquecer: não culpemos a vítima quando ela for vítima.


… Tudo o que digo é: não compremos esse rótulo quando for desnecessário.


Se pudermos ser mais do que vítimas das circunstâncias, sejamos.


Sejamos artistas.



“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deverás sente.”

Autopsicografia

(Fernando Pessoa)



Existe sofrimento no mundo. Existe sofrimento dentro de cada um de nós. É inevitável. E o artista, do alto de toda sua delicadeza, é um ser que se aventura a passar/passear pelas experiências – sejam elas simples ou complexas; positivas ou negativas; alegres ou tristes.


O artista é (também) seu próprio material de trabalho e campo de pesquisa. Ele experimenta, em si, pensamentos, sentimentos, sensações e intuições, antes de ganhar o mundo e compartilhar suas obras.


Por isso, um artista que aprende a trabalhar o sofrimento – que explora caminhos para transcendê-lo (sem se valer de fórmulas ou chavões de autoajuda) – é alguém que tem um bem valioso para oferecer aos demais.


Isso, claro, está longe de querer dizer que para sermos artistas temos de ser sofredores de carteirinha. Não, nós não temos de ser pessoas incompreendidas, depressivas, estropiadas. Para criar nossa arte, nós não temos de ser desajustados inveterados. Não temos de corroborar nossa própria desvalorização.


Por mais difícil que possa ser o caminho de um artista, se buscarmos cada vez mais domínio sobre a linguagem com a qual escolhemos trabalhar (a escrita, por exemplo); se buscarmos mais (auto)conhecimento, podemos viver uma vida mais artística. Podemos encontrar nosso espaço – dentro e fora. Nosso tempo.


Podemos ser artistas, mesmo que o mundo desdenhe disso. Mesmo diante da injustiça – ou principalmente por causa dela.


Podemos ser.


… Já somos.



Autor Desconhecido



23 – DEPENDÊNCIA


As relações que estabelecemos com outros seres são das experiências mais significativas que podemos ter. Queremos isso. Precisamos desse vínculo. Estabelecer intimidade e laços de confiança com outras existências nos enriquece. É, também, um mapa da mina (do tesouro) possível. Não por acaso, tendemos a nos sentir mais confortáveis perto daquelas pessoas que nos conhecem. Aqueles que já demonstraram, no mínimo, querer nos entender.


… Com eles, acreditamos poder nos abrir, sem máscaras. Podemos ser nós mesmos.


O artista, no entanto, é um louco. Porque ele escolhe, de livre e espontânea vontade, ampliar o horizonte de exposição. Ele pega suas vivências mais íntimas, cria uma aura fictícia ao redor delas, e compartilha com o mundo. Sob certa perspectiva, é um grau insano de exposição.


Outros podem nem perceber, mas nós sabemos que é. Porque não são só as pessoas que amo, em quem aprendi a confiar – aqueles com quem construí uma história, lado a lado – que podem ler meus livros. Todo mundo pode. Todo mundo pode assistir à minha peça de teatro. Ver meu quadro. Minha escultura...


E dói. Dói quando, do nada, alguém passa o olho num texto que levei anos – anos! – escrevendo e tece um comentário maldoso. A pessoa nem se deu ao trabalho de ler o texto e veio me atacar. Por quê?


É difícil. É difícil demais lidar com a enxurrada de impressões externas que pode vir (chegaremos da armadilha/caminho da crítica).


Por isso, nós precisamos de apoio. Precisamos ter uma base de confiança, de pessoas em quem confiamos, as quais podemos recorrer, quando a tempestade se aproxima. É bom ter alguém que segure nossa mão, mostrando que não estamos sozinhos, remando em nossos barquinhos, isolados.


Artistas buscam aquilo que os diferencia, o tempo todo, mas eles continuam sendo pessoas. Continuam precisando de outras pessoas por perto (nem sempre, não o tempo todo – e nem só na desgraça, por favor).


Precisamos de apoio externo.


E precisamos de apoio interno.


Precisamos aprender a encontrar bases confiáveis dentro de nós. Precisamos aprender a nos sustentar com as nossas próprias pernas (sejam elas simbólicas e/ou literais).


A vida de um artista será muito, muito difícil se ele sempre depender do apoio e da aprovação de outrem para seguir em frente. Os vínculos são bem-vindos, desde que não criemos uma relação de dependência com eles.


Existem momentos em que, mesmo as pessoas mais confiáveis, não estarão presentes. Por inúmeras razões, as pessoas que amamos podem não estar por perto, oferecendo-nos suas mãos. Talvez porque elas não possam. Talvez porque, naquele momento, elas não queiram.


E, se dependermos do apoio e aprovação das pessoas amadas para fazermos nossa arte, travaremos. Nos sentiremos perdidos, desolados, de coração partido.


Sem perceber, adotaremos uma postura de cobrança. Exigiremos o apoio – incondicional. Exigiremos aprovação, em nome da amizade, dos laços de sangue, do amor.


… E exigir apoio é uma fórmula para não tê-lo.


A longo prazo (se é que precisa tanto), a exigência tende a deformar nossas relações.


Por isso, precisamos aprender a não depender de nada nem ninguém para fazermos nossa arte. Precisamos aprender a tirar esse peso, essa carga dramática de cima das nossas relações.


… Precisamos aprender a contar, primordialmente, com nós mesmos.


Evitamos, assim, o sufocamento tóxico de nossas relações, repletas de exigências, aguardando um suporte 24 horas por dia, 7 dias por semana. Ninguém existe apenas para nos servir. Ninguém merece que as usemos como ponto de apoio. Ninguém. Muito menos as pessoas que nos oferecem seu afeto, seu amor, de livre e espontânea vontade.


O Guardião do Limiar precisa de aprovação. É ele quem espera as bajulações e elogios vindos de fora. O tesouro interior já é precioso por si só. Ele brilha sozinho. Não precisa que ninguém lhe diga: nossa, que legal, você brilha; você é tão bonito...


… Não faria o menor sentido, convenhamos.


Portanto, ao ultrapassarmos a Grande Muralha, ao adentrarmos nossos Castelos Internos, transcendemos a própria dependência do Guardião, como fonte de resguardo e (suposta) segurança. Transcendemos as dependências – emocionais, psicológicas, sociais, mercadológicas etc..


Eu já não dependo, assim, do meu estado de espírito para escrever, por exemplo. Não preciso estar feliz, não preciso estar num bom dia para sentar a bunda na cadeira e escrever. Não dependo da inspiração.


Eu faço minha arte.


Faço porque ela é um caminho para encontrar a mim mesmo. É um caminho para me transcender e encontrar algo maior – o tesouro existente no meu interior.


… E isso já é muito – mais do que podemos conceber em nossa vã filosofia blogueira.



(Cena do filme 'Me Chame Pelo Seu Nome')



Cabe, antes de encerrarmos este texto, uma última reflexão: o tesouro interior é o que dá sentido para tudo. Mas ele não é uma recompensa.


Tratá-lo como tal faz com que, de novo, caiamos na chavinha perniciosa da dependência. Nesse caso, o encontro com o nosso tesouro vira uma promessa. Se fizer isso, acontecerá aquilo. Adoramos a suposta lógica da causa e efeito. Contudo, ela é outra armadilha/caminho possível na hora de vasculharmos nossos interiores.


Recompensas possíveis são expectativas criadas. Ansiamos pela promessa de brilho vindouro. E aí mora mais uma chance de darmos com a cara no muro.


… Porque, mesmo sem perceber, condicionamos nosso caminhar à gratificação de entrar em contato, mais adiante, com nossos tesouros interiores.


Criamos uma fórmula.


E as fórmulas… você já sabe.


Neste meu céu de estrelas, imagino o tesouro interior como sendo maior do que nós (pode parecer paradoxal, e é bom que seja mesmo). Nós caminhamos em sua direção, porém, não temos como garantir que o caminho funcionará. Só descobriremos fazendo, caminhando.


Cegos como somos, tudo o que podemos fazer é aguçar nossas faculdades, a fim de conseguirmos sentir o brilho do tesouro, quando este recair sobre nós (há quem diga que é o tempo todo. Paradoxal, de novo, iupi!).


Os tesouros internos, portanto, não são uma recompensa, e sim o contato com a nossa verdade. E a verdade não tem uma forma fixa. Ela é dinâmica. Depende do tempo, lugar e pessoas envolvidas.


O que nos move, então, não é a expectativa de sermos bem-sucedidos. Não alimentamos a esperança de colhermos frutos melhores e por isso plantamos hoje. Não dependemos do futuro para realizar o presente.


… Nós plantamos porque é assim que nos trabalhamos, trabalhando também a Terra.


Caminhamos em direção aos nossos tesouros porque não somos capazes de prever as infinitas maravilhas que eles nos reservam — e esperar algo deles seria, no mínimo, limitar seu raio de ação e possibilidades.


Nossos tesouros, afinal, nos expandem, não limitam.




Um blog para encontrar Escrileitores no mundo

© 2020 por Lucas M Esher

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