• Lucas M Esher

32 maneiras de vasculhar o interior de um Artista



Olá, Escrileitores,


Quem aqui já iniciou um projeto artístico e desanimou? Quem já experimentou aquele momento de insegurança no meio do caminho? Aquela dúvida, que fez a empolgação ruir, as prioridades mudarem, a rotina engolir tudo?


… Será que já aconteceu de você pensar, pensar e pensar, mas nunca colocar em prática aquela ideia incrível? O sonho que transformaria o mundo? Viraria de ponta-cabeça a sua vida?


E que tal sentir vergonha do que fez? Já sentiu montanhas-russas no estômago ao compartilhar um texto mais profundo? Rabiscou um poema e guardou na gaveta, imaginando o que aconteceria se Fulano lesse?


E o medo – o pavor! – das festinhas descoladas, já sentiu? Aquele, do suor frio, de pagar mico ao desconjuntar o esqueleto, na frente de todo mundo? Já teve medo de saltar na pista e mostrar o ser dançante que existe em você? Ou de fazer qualquer coisa que parecesse muito divertida, porque soaria bobo, ridículo, infantil?


… Carambolas, e as dietas? E os programas de exercício que acabam, do nada?


Pois é, existem incontáveis livros (de autoajuda?) falando sobre isso. Existem cursos caríssimos na internet se apoiando na promessa de compre, compre, eu tenho a fórmula para solucionar esse problema de uma vez por todas. Basta procurar e, sem muito esforço, descobrirá enxurradas de promessas fáceis, curas milagrosas, atalhos rápidos, indolores.


Eu não sei você, mas já li muitos livros assim. Vi muita gente usando e abusando desse artifício. O primeiro passo, da maioria das regras infalíveis ali promovidas, é tenha um objetivo claro definido. O que você quer? Você precisa saber o que quer, antes de começar a caminhar. Nada poderia fazer mais sentido, certo?


… Certo?


Suponhamos, portanto, que eu queira desbloquear meu eu criativo. Jeito bonito de dizer que não consigo escrever, estou travado, pelo amor de Deus alguém me ajude!


Sigo uma receita de bolo. Cumpro passo a passo a fórmula que eles, os gurus da moda, dos palcos, ensinam. E, uau, lá pela sétima etapa, enfim, consigo mudar, ver uma diferença… eu voltei a escrever. Perfeito, certo?


… Certo?


Agora, escrevo todo dia. Venci a barreira que me impedia de frequentar a cadeira do escritório, botar os dedos nas teclas e sair com um texto como este, que você está lendo. Quero manter a engrenagem funcionando e, por isso, faço dessa conquista um hábito, um padrão positivo. Todo dia acordo no mesmo horário, me sento do mesmo jeito e escrevo uma quantidade mínima de palavras. Era a mudança tão desejada, e eu consegui, oba! Vim, vi e venci. Tenho o poder de controlar meu próprio destino nas palmas das mãos, certo?


… Certo?


Por muito tempo – muito tempo mesmo –, essas fórmulas de sucesso me incomodaram. E eu não sabia exatamente o porquê. Como disse, já consumi muitos livros e cursos assim. Já me forcei a segui-los à risca, ignorando esses incômodos. Passando por cima deles. Pisoteando eles. Porque, até onde sabia, eram eles, justamente, que me impediam de agir. Os incômodos com o jeito certo de fazer acontecer eram o inimigo que deveria ser combatido, aniquilado, esmagado de uma vez por todas.


Hoje eu penso diferente. Depois de milênios debruçado sobre o assunto, eu descobri o que me incomoda nessa história toda. E eu vou dizer para você, Escrileitor, sem embromação, sem gatilhos mentais para criar expectativas e recompensas.


… Me incomoda o fato de que uma fórmula exige outra na sequência.


Você descobre uma fórmula mirabolante e milagrosa de resolver os seus problemas, e, sem perceber, se torna prisioneiro dela. Você descobre um jeito de mudar e, a partir de agora, sempre que quiser efetuar outra transformação, fará uso desse mesmo passo a passo. Conservará, assim, uma mentalidade vencedora, enjaulada, seguindo aquele jeito pré-determinado de agir e pensar. Porque, aparentemente, ele funciona, iuhu!


Eu resolvi meu problema de bloqueio criativo por meio da fórmula de ouro das mentes criativas. E agora me deparo com o problema sobre o que eu vou escrever? E como eu vou arquitetar, de uma forma matadora, o que quero escrever?


… Uai, é óbvio, não é?


Eu aplico a mesma fórmula de sucesso. Entro num curso de escrita criativa, a fim – e afim – de aprender o melhor jeito de escrever um livro de sucesso. E lá vem mais um bando de teorias e fórmulas. Descubro coisas que devem ser feitas se quiser ser lido. E coisas que devo evitar. Existem regras que preciso dominar, mesmo que seja para, lá na frente, quando for um mestre da escrita, subvertê-las, dobrá-las a meu favor.


… E é assim que eu me transformo num seguidor de manuais de instruções, perdendo de vista o Artista que existe em mim.



TÉCNICA vs FÓRMULAS

Preciso fazer uma ressalva, antes de avançar nessa história de Artista.


Eu acredito na nobreza da arte, na prática dedicada de um ofício. Eu acredito no aprimoramento de técnicas. Acredito que precisamos, sim, afiar nossos machados. Que é saudável o contato com teorias e filosofias que ampliem horizontes. Porque ninguém nasce sabendo (tudo).


Ou seja: não defendo, de modo algum, o fazer artístico desleixado. Não sou um defensor da causa pelos poemas escritos nas coxas que clamam por endeusamento nas redes sociais. Não estou aqui levantando a bandeira pelo fim da busca por conhecimento, o fechamento dos olhos para o aprendizado, o ensimesmamento irredutível.


… Nada poderia estar mais distante do que acredito, aliás.


Tudo o que defendo, aqui, neste texto, é que reflitamos sobre como fazemos isso acontecer. Que olhemos com cuidado para o modo como nos aproximamos do ensino, da arte, das nossas vontades mais profundas. Que não nos contentemos com soluções mágicas, superficiais, pré-formatadas. Que encaremos o leão de frente, desarmados, ávidos por mergulhar fundo na nossa interioridade.


Falei, portanto, dos meus incômodos com as regras do bom fazer gourmetizado porque questiono a dependência criada nesse tipo de relação com o aprendizado. Segundo a minha experiência, uma fórmula clama, invariavelmente, por outra fórmula. Um elo da corrente atrai outro elo. Cria-se, assim, uma cadeia sem fim, insaciável. Eis o caminho para uma maneira enrijecida de ver e pensar o mundo. Nos falta o rigor da busca por técnicas, e nos sobra a rigidez.


… Porque as fórmulas são um atalho para a fixação.


Fixamos. Endurecemos o fazer. Mecanizamos processos, comportamentos, decisões. Vencemos hábitos colocando outros no lugar. E quando esses novos hábitos deixam de funcionar, substituímos por outro. E mais outro, e mais outro, rumo ao infinito e além...


Nos tornamos dízimas periódicas (zero vírgula um dois um dois um dois...). Estudantes decoradores de fórmulas para passar na prova.


Tapamos o sol com a peneira. Trilhamos uma estrada asfaltada, que muitos narizes dizem ser a certa. E nós acreditamos. Acreditamos porque é isso que vende, é isso que está nos livros, nas séries, porque é nisso que as pessoas acreditam. Porque é isso que os bem-sucedidos pregam, e se você quer ser um vencedor precisa fazer como eles.





… Caramba, mas e se eu não quiser fazer desse jeito?


Porque eu não quero. Nunca quis.


… Tem jeito?


Eu não faço a menor ideia. Sério, eu não sei. Não tenho como lhe dar nenhuma resposta definitiva. As minhas respostas seriam tão vazias quanto os artifícios mercantis que acabei de desencorajar.


Tudo o que eu posso é dizer eu tô aqui, caminhando. E eu continuo vivo.


Porque eu enxerguei que sou um cego. Um cego no meio de um tiroteio. Eu não comecei esta troca de balas, mas ajudei a sustentá-la, até aqui. Porque eu sou um cego que, várias vezes, agarrou a mão de outros cegos, que conseguiam gritar mais alto, dizendo que sabiam para onde estavam indo. E eu acreditei. Dei a mão. E me deixei levar.


Portanto, é importante que você saiba, para começo de conversa: não se iluda, eu sou só mais um cego. Um cego metafórico, daqueles que enxergam folhas em branco e querem começar a rabiscar palavras nela, feito Saramago (mas sem querer repetir os passos dele).


Sou cego e isso não é psicologia reversa, coitadismo, nem arma de persuasão: é a verdade, apenas a verdade. (E olha que tem uma parte minha – que você conhecerá em breve – que adoraria berrar ei, olha pra mim. Olha como eu sou inteligente. Goste de mim. É uma vozinha, aqui dentro, que insiste em dizer isso. Eu só aprendi a não levá-la muito a sério).


Então, senhoras e senhores, que fique sabido que este cego não detém segredos ou respostas de pura sabedoria. Não possuo fórmulas mágicas. Não tenho produtos mirabolantes para vender e solucionar seus problemas. Nem quero. Quero escrever livros, ficção, fazer arte. Quero juntar pensamentos, sentimentos e sensações na forma de palavras. E, no meio desse fazer todo, quero me abrir e trocar com pessoas que também queiram isso.


Por isso, hoje, se tiver que abraçar um rótulo, eu prefiro me posicionar como Artista.


… Embora o que eu prefiro mesmo é não vestir rótulo algum.



ENSAIO SOBRE (NENH)UM ARTISTA


Eu cansei. Cansei de usar a palavra “eu”, como se fosse tão representativa. Como se tudo de mim coubesse em duas letras que se dizem uma palavra. Em um pronome que quer se sentir verbo, adjetivo, objeto, substancial. Cansei de me pautar em visões que por ventura acreditei minhas. Cansei de carregar todo um peso, de todo um mundo que inventei para chamar de meu. Cansei de me cansar, por aí, para me ocupar de ter um lugar onde descansar. Cansei desse ser, que tanto quer crer, crê querer, pensa entreter, se entretém de pensar. Cansei de desejar, transitar, das mil possibilidades, de nenhuma utilidade. Cansei da prática, de propósito, da razão, do talento, do merecimento, da evolução. Cansei do vazio. Do frio. De entrar no rio e salmão. E correnteza. E nada. Cansei da rotina. De repetir passos e percalços. De deixar escorrer a vida para cultuar o que se esvai. Cansei de tentar. Planejar. Preparar. Alinhavar. Rodar. De olhar, não ver, não saber, achar, perder, competir. Cansei de me sujeitar a ser sujeito de frases que parecem caber na minha boca para não serem mais minhas. Cansei de julgar entender que o que sinto é sensível, profundo, quando é mais do mesmo que já li por aí. Cansei de ruminar. Cansei de verdes bandeira, grama, inveja, impaciência. Cansei de encontrar boi e abraçar boiada. Cansei de compartilhar o que é alvo de gracejos, ensejos, realejos. Cansei de ordenar palavras para dizer o que, em algum ponto – final, primordial –, sei que nunca direi. Cansei de ter a ver, haver, ter que, poder, pertencer. Não sou eu. Nunca fui, nunca serei eu. Cansei. E não fui eu.



Escrevi esse texto, aí em cima, há um tempo. Chamei de Escafed(eu). Relendo, hoje, percebo o quanto todas essas linhas continuam reverberando, aqui dentro. O cansaço persiste. Continuo querendo ir além de fórmulas prontas, de jeitos certos para vender minhas palavras e ser bem-sucedido.


“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado

a uma sociedade profundamente doente”

(Jiddu Krishnamurti)


Cansei de agarrar a mão de outros cegos, confiando que eles vão me ajudar a sair desse tiroteio. Parei com essa história de buscar respostas sendo puxado por aí.


Hoje eu percebo que existem milhões de livros e cursos falando sobre as dificuldades que enfrentamos – para sermos nós mesmos, de verdade verdadeira – porque é difícil para chuchu resolver tais questões. Alguns diriam que é a grande batalha a ser travada, ao longo de toda uma vida (quiçá mais).


À exceção de seres iluminados – pessoas que, de fato, alcançaram um nível de compreensão que sequer imagino –, estamos todos nesse barco. Todos navegando, numa imensidão azul, ora turbulenta, ora dona de uma brisa refrescante, sob um céu de estrelas, encantador.


Estamos aqui, ainda aprendendo a remar. E remar, minha gente, não é algo que fazemos uma vez e pronto, está aprendido. Exige prática. Exige técnica. Exige que, mesmo conhecendo a teoria, de cabo a rabo, continuemos remando. Ou não sairemos do lugar. Ficaremos à deriva, contando com a sorte e a maré, sendo jogados de um lado a outro.


Ah, é? E para onde eu remo, se não enxergo nada no horizonte?



Isso depende do lugar aonde quer ir, diz o Gato tranquilamente.

Realmente não importa, responde Alice.

Então não importa que caminho tomar, afirma o Gato, taxativo."

Alice no País das Maravilhas

(Lewis Carroll)


De novo, nós não trabalhamos com objetivos aqui, nesta lóxinha. Pelo menos, não com aqueles dignos de descrições detalhadas, certeiras, completas. Nada de compartilhar a localização no WhatsApp, com coordenadas geográficas precisas. Eu sou um cego, lembra? Não tenho como ter certeza absoluta de para onde preciso ir. Tampouco acredito em apontamentos unilaterais, direcionamentos exclusivos. Não penso que temos uma bússola interior que sempre aponta para o norte.


Não. Nada disso.


Ainda assim, quero continuar remando... E aí, comofas? Quer dizer que o Gato de Cheshire tem razão? Que não importa o caminho? Se eu sou cego, vou ficar remando a esmo, para sempre?


Não necessariamente.


Existem maneiras de ir além, sem precisar desenhar trajetórias definitivas. Maneiras de viajar utilizando estruturas dinâmicas, que abarcam diferentes possibilidades e correções de rota em tempo real. Estruturas que favorecem o movimento, ao invés de engessar formas indiscutíveis. Estruturas semelhantes a um infindável caleidoscópio, ofertando pontos luminosos para servir de referência.



O CÉU DE ESTRELAS

Pensemos como os antigos. Em alto mar, ainda nos nossos barquinhos, se você precisasse de um ponto de referência para navegar, recorreria às sonhadas terras, que um dia surgirão no horizonte, ou olharia para cima e aproveitaria o céu de estrelas (aparentemente) fixas?


Se eu estivesse aqui, disposto a lhe oferecer respostas prontas, estaria prendendo uma corrente ao seu barquinho e puxando ele na direção do xis que fiz num mapa-mundi encontrado-largado por aí. Estaríamos, então, nos movimentando pela promessa de uma vindoura terra.


Eu lhe disse, no entanto, que não quero fazer isso. Por isso, ao invés de trabalhar com respostas, utilizei o quê?


… Uma metáfora.


Sim, este foi o meu recurso. A primeira vista, pode parecer bobinho, só uma historinha para tornar o texto mais leve. Só que não. As metáforas – as analogias –, ao contrário de fórmulas durangas, são úteis porque abrem caminhos.


… Quer um exemplo da sofisticação desse tipo de estrutura?


Pergunte-se o que significa remar para você. Reflita sobre os momentos em que se sentiu remando, sem parar. Você se lembra de situações em que remou e remou, mas não saiu do lugar? Lembra de circunstâncias em que o mar foi uma bênção? Ou uma tragédia? Aliás, o que significa mar para você, nessa história toda? Você está pensando na sua vida profissional? E se olhar pelo viés das relações amorosas? E de uma viagem que já fez? E se compartilhar essa metáfora com outras pessoas, o que significa remar para elas?


… Você vê?


Existe uma estrutura dinâmica no uso das metáforas. Elas não apontam caminhos, embora escancarem possibilidades de novos entendimentos. Metáforas não dão respostas, mas clareiam a trilha para caminharmos, em meio à mata fechada.


Você pode ir para qualquer lado, vasculhando dentro de si o que significa essa história de remar, percebe? Você entende remar, hoje, como escrever um livro, talvez. Viver como escritor, escritora. Amanhã, no entanto, remar talvez signifique algo diferente. Talvez tenha a ver com filhos. Com amigos. Parceiros. Ou criar um estilo de vida. Talvez significará algo que seu radar, por ora, não consegue prever. Terras que estão distantes no horizonte…


E é por isso que utilizei esse recurso: porque ninguém sabe o que você pensa. Eu não tenho como saber. Mas a metáfora encontra um jeito de conversar com todo mundo, assumindo múltiplas formas.


Eis o poder das metáforas. E das histórias. Elas dizem muito, sem engessar nada.


(Tanto que o povo mercadológico já descobriu, há tempos, esse poder, abusando de histórias – storytelling – para gerar engajamento, conversão, influenciar emoções etc. etc. etc.. Pena que, para eles, é apenas mais uma ferramenta, guardada numa caixa, dura, sólida. As histórias deles, reparem, tendem a ser formatadinhas, seguindo um passo a passo para o sucesso. Ou seja: existem histórias e histórias).


Pense, portanto, na arte de contar histórias como uma linguagem.


Linguagens são estruturas vazias, que nós, usuários, preenchemos, de acordo com a nossa necessidade e condição.


Eu posso, por exemplo, usar a língua portuguesa (uma linguagem) para escrever este texto, tanto quanto posso xingar alguém no trânsito. A estrutura que me permite realizar ambos é a mesma: o português e sua gramática, sintaxe, vocabulário etc.. A aplicação, no entanto, é bem diferente.


… Porque toda linguagem permite infinitas possibilidades de uso.


Linguagens, insisto, abrem caminhos.


"Tudo é linguagem."

A trama e a urdidura --

um ensaio sobre educação a partir do encantamento

(Bia Machado)


E o pensamento analógico, na sua condição de farejador de tesouros, possibilita o diálogo entre qualquer linguagem com qualquer linguagem.


E o que é analogia? Faltei nessa aula de português...


Não tem problema. O que precisamos saber, por ora, é que analogia é a arte de estabelecermos conexões entre diferentes linguagens. Analogia é uma fonte criadora de pontes.


Exemplo: você já leu um texto em português, traduzido do inglês, certo? Agora, pergunte para um tradutor se a correspondência entre essas duas línguas é perfeita.


… Perguntou?


Não? Tudo bem, eu perguntei. Tenho várias amigas que trabalham na área. E o que elas sempre me dizem? Não. Não é só uma questão de jogar palavras no google translate. Nunca é. Porque as estruturas das duas línguas são diferentes. Há muito mais envolvido nesse jogo de palavras do que trocar oranges por laranjas.


“Traduzir é trair.”

(Expressão Popular)


É possível, contudo, estabelecer pontes entre as duas linguagens, por mais que não exista a tradução perfeita. Já é um começo. Já permite que os não-falantes de inglês tenham (algum) contato com as ideias de determinado autor, que só escreveu the book is on the table.


Analogia, portanto, é isso: uma ferramenta em que tudo pode conversar com tudo (o que NÃO quer dizer que qualquer coisa conversará com qualquer coisa).


Podemos, assim, relacionar o campo da escrita, por exemplo, com o do autoconhecimento. A partir da conexão entre essas duas linguagens, traçamos paralelos entre o funcionamento do mundo das histórias e o nosso próprio funcionamento. Expandimos, com isso, nosso campo de experiência. Fazemos ligações dinâmicas (sempre vivas!) transpondo barreiras entre linguagens conhecidas e desconhecidas. Favorecemos, nessa brincadeira muito séria, nossa capacidade de compreensão e aprendizado.


E este, minha gente, será o meu céu de estrelas, por enquanto. Me guiarei a partir da linguagem da escrita, da contação de histórias para falar sobre tudo. Se não há nada para ver no nível em que estou, sentado no meu barquinho, olho para cima. Vejo as histórias que as estrelas, antiquíssimas, têm para me contar. Desenho analogias com meu remo, na água do mar. Assim, uma braçada por vez, crio um caminho caleidoscópico para mim.


… No qual as histórias se tornam o meio, não um fim.


Porque, oras, este é um blog de escrita, do fazer e viver artisticamente. E é para esse lado que vou remar. E, se você está aqui, talvez seja porque remamos em direções similares – talvez não. Talvez você só goste de remar com uma técnica semelhante à minha, preferindo o outro lado do globo – e tudo bem também.


O importante é saber que navegar é preciso (o mestre disse, não eu).


Por ora, então, sigamos viagem…



UMA VIAGEM, MUITOS NOMES

… Ok, você está falando de remar, navegar, e agora quem ficou boiando fui eu. O título deste texto não é 32 maneiras de vasculhar o interior de um Artista?


Exato, eu digo para a voz dentro da minha cabeça. E é sobre isso que estou falando, também, o tempo todo.


Quando falo em remar, navegar, você pode usar essa imagem para pensar numa viagem externa, assim como um mergulho interno.


… O quê? Mergulho? Quer dizer que o barco afundou?


Não, voz dentro da minha cabeça. Não quer dizer isso. Não seja tão figurativamente literal. O que eu quero dizer é que ninguém navega apenas no mundo lá fora. Eu navego observando as estrelas e, enquanto faço isso, acabo por navegar igualmente dentro de mim, rumo aos meus mundos interiores.


"O que está em cima é como o que está embaixo.

O que está dentro é como o que está fora."

Lei da Correspondência -- O Caibalion

(Três Iniciados)


Tradicionalmente, Aristóteles já dizia, conhecimento, conhecido e conhecedor são tudo farinha do mesmo saco. Ou seja: isso significa dizer, por exemplo, que se você estuda escrita criativa, neste blog, conhecerá mais sobre essa nobre arte. Conhecerá, também, mais sobre você, Escrileitor, e sobre a pessoa que está lhe falando (no caso o autor deste texto, eu, Lucas).


… Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses é mais um exemplo emblemático e análogo.


Assim, como pode ver, não sou eu quem está dizendo isso. Eu não sou o descobridor do poder das histórias, das metáforas, das analogias. Estudiosos, filósofos, mitólogos e muitas outras pessoas, muito diferentes entre si, já soltaram frases bem parecidas ao longo dos séculos. Gente apontada como sábia. Gente de renome.


Agora, se você prestou atenção no que eu disse, não muitos parágrafos atrás, isso pouco importa. Podem ser palavras belíssimas, de pessoas que admiramos. Pessoas que cultivaram frutos até hoje reluzentes. Podem ser palavras, inclusive, que nos vendem uma realidade na qual adoraríamos acreditar. Porém, por si só, são palavras. E as palavras, sozinhas, sem a experiência, não bastam.


Eu não trouxe esses pensamentos para dar uma carteirada. Não estou atrás do famigerado gatilho mental da otoridade. Palavras podem ser sábias, e facilmente distorcidas. Podem ser utilizadas, por exemplo, como dogmas, regras de conduta absolutas, que favorecem comportamentos enlatados. Posso repeti-las à exaustão, até estarem absolutamente vazias e já não me dizerem nada.


… E eu cansei de ser cego e aceitar interpretações pré-assadas, lembra?


Preciso continuar remando.


Preciso arar minha própria terra. Só assim, quando chegar o dia da chuva cair – a chuva da qual essas palavras falam –, suas gotas encontrarão sementes dispostas a crescer.


Por isso, se você leu qualquer uma dessas frases-clichês e pensou ok, eu já ouvi isso um milhão de vezes, minhas boas-vindas ao Clube dos Cegos que Passam os Olhos sobre as Palavras – por ora, somos pelo menos dois.


É, eu também bato o olho e ignoro essas frases, partindo para a próxima, de tantas vezes que já escutei. Cansei delas. Elas são aquela amiga chata que fala sem parar ao telefone e eu já não escuto. Deixo o telefone virado, abraçando o sofá.


E é por isso, exatamente por isso, que precisamos continuar remando.


Ai, remando, de novo? Chega, né? Que chato, como você dá voltas. O mundo já girou três vezes e nós ainda não chegamos em lugar-nenhum. Vai demorar? Tá chegando? Tô com fome. Preciso parar e ir no banheiro. Olha, tem um posto ali, super inflacionado, com a bandeira...


Opa, sinceramente, se o que você tem é pressa, este texto não é para você.


(Ouviu, voz dentro da minha cabeça?).


Como disse, me esforçarei ao máximo para não pegar estradas asfaltadas, aquelas grandes rodovias, de alta velocidade, que cobram pedágio para manter tudo bonitinho, sem buracos (cof, cof, cof).


Aqui a mula anda um passo por vez. E aprecia a paisagem.


Foi você mesmo que disse mula, todo mundo viu, certo? Eu não disse nada. Nada.


Certo.


Agora, lá nos primeiros parágrafos, antes de embarcarmos na metáfora do barquinho, levantei várias questões, lembra? Falei das dificuldades que enfrentamos ao querer levar uma vida mais artística. Das barreiras que temos de superar, todos os dias, sempre que queremos fazer algo diferente, sair da rotina.


E, não sei se você percebeu, mas era de você que eu estava falando.


Eu não sabia onde chegaria, nem quando, muito menos como, mas sempre foi sobre você este texto.


Você; você aí mesmo, que tá fingindo que não é com você. Que é de uma teimosia ímpar, capaz de ler um texto que não foi feito para você. Sim, você, a mala sem alça, detentora de muitos nomes.


… Condicionamentos, padrões, hábitos, cristalizações, rótulos, identidade, resistência, sabotadores, censor interno, ego, voz dentro da minha cabeça… e por aí vai.


Eu? Você está falando de mim? Euzinha da Silva?


Você. Você que, neste blog de escrita, resolvi chamar de Guardião do Limiar.


Guardião do Limiar? Ai, por quê? Puxa, que nome feio... não gostei. Soa tão démodé. E, para ser sincera, desconheço o significado da palavra Limiar (mas não conta para ninguém).


Tá bom, não conto. Mas fica quietinha um pouco, ok? Está atrapalhando o fluxo do texto.


(E limiar é, figurativamente, a entrada, o começo de algo. E démodé é fora de moda, hein?).



O GUARDIÃO DO LIMIAR

Bom, interrupções à parte, imagino que você, Escrileitor, conhece ou já ouviu falar da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, sim?


(Se não, posts futuros virão, guenta firme).





Como você pode ver, na imagem acima, a Jornada do JC é composta de doze passos (hm, o que você acha disso, Hércules?). O primeiro diz respeito ao Mundo Comum, ou seja, a rotina, o dia a dia mundano e materialista.


É a matrix do Neo e a nossa também. É a casa dos tios, o mundo dos trouxas no Harry Potter. É o nosso armário debaixo da escada, onde vivemos enfurnados, cobertos de poeira. É a rotina (zumbi) de acordar todo dia, tomar café, escovar os dentes, sair para trabalhar, se enfezar no trânsito, enfiar comida congelada no micro-ondas, tomar banho pensando nos problemas, afundar no sofá e ligar a televisão… Tudo o que fazemos de forma automatizada, sem precisar parar para pensar, para sentir. Fazemos porque nos acostumamos a fazer, no pior estilo linha de produção fabril.


Muitas histórias começam neste ponto porque, surpresa!, é uma realidade deformadora, aborrecida, angustiante. Eis a vida passageira, sem aventura, da mesmice. É o querer se encaixar, ser normal, só mais um. São os comportamentos massificados, o plástico, os conservantes, o transgênico, o petróleo no cabelo. Todo e qualquer atalho que nos facilite a vida, evitando gastos de energia.


“Às vezes eu falo sozinho

Misturo cachaça com vinho

Eu queria sair, pelado na rua

Queria fazer, batucada na lua

Escrever um poema na linha do horizonte

Eu só não quero virar, Rinoceronte

Eu só não quero virar, Rinoceronte.”

Peça teatral Canto para Rinocerontes e Homens

(Jonathan Silva)


É difícil (não impossível) sustentar uma história no patamar do Comum apenas. Geralmente, ela pede para crescer e ir além. Alguma coisa excitante precisa acontecer. O Chamado para Aventura. Uma pílula vermelha, uma carta voadora, a morte enigmática no Louvre… Pode, inclusive, ser algo menor, menos espalhafatoso, como encontrar um livro na biblioteca, ter uma conversa reveladora com um amigo...


E seguimos, tempo não é de nos demorarmos, jovem Padawan. A história que faz uso da estrutura do monomito ainda passa pela Recusa ao Chamado e o Encontro com o Mentor (será que pode ser um céu de estrelas?).


… E, voilà, alcançamos o Cruzamento do Limiar.


Eis o ponto das narrativas em que o herói ou heroína enfrentará um pequeno (mas não desprezível) desafio. Se ele quer descobrir o caminho para um novo mundo, precisa superar alguma(s) barreira(s), e se provar minimamente digno.


É aqui, bem aqui, que o Guardião do Limiar vive.


Um ser que, como qualquer parte dessa jornada, pode assumir infinitas formas. Um homem, uma mulher, um bicho, um aviso, uma coisa, um treco… É o muro de tijolos num beco sem saída. O hobbit deixando para trás o conforto do Condado e sendo perseguido. A jovem chegando à cidade grande, toda desajustada.


Não vá, o Guardião diz. Não atravesse esta porta. Não, por favor, saia daqui enquanto é tempo. Não se arrisque. Não salte nesse abismo.

Arcano do Louco (Tarot Rider-Waite)

Para que mudar? Aposte no seguro. Aqui é mais quentinho. Melhor um pássaro na mão do que dois voando.


Mesmo que seja um pássaro preso, enjaulado, que já não canta mais.


Pois é, Escrileitor; se você quer sair do seu mundinho, da vida de trabalho sem sentido, da rotina estafante, dos estudos decoreba, não espere moleza. Há um choque pela frente. Se você quer se arriscar no desconhecido, lá fora, a vida não vai sorrir para você. Não ainda.


Primeiro, o herói ou heroína precisa se mostrar especial aos olhos do mundo, completando a jornada. Vencendo o status quo, o grande inimigo. Aí chegarão, talvez, os aplausos (talvez. Porque não existem garantias). Você pode dedicar sua vida à mais nobre causa, e terminar taxado de louco.


Acontece.


Eis uma história que se repete todo santo dia.


Precisamos ultrapassar limiares constantemente, de novo e de novo. Cada dia é uma nova jornada. Cada livro, cada página escrita é outra aventura. Escolher a roupa que usará amanhã é uma. A decisão do que comer também. Decidir entre conversar com seu parceiro, sua parceira, ou fechar a porta do quarto, idem.


… A Jornada é uma estrutura vazia, que pode ser preenchida com pequenas ações ou universos inteiros.


E é por isso que o Guardião do Limiar é capaz de assumir as mais diversas facetas. Algumas monstruosas, escancaradamente traiçoeiras. Outras nem tanto... Ele é, não por acaso, o Mestre dos Disfarces. Um camaleão, que usa e abusa de seus poderes, obcecado em preservar a mesmice, o status quo.



A FUNÇÃO DO GUARDIÃO

Tá, e esse sujismundo Guardião tá fazendo o que aqui? Quem foi que colocou ele nesse limiar? Quem deu tanto poder para esse bicho?


Hm, que tal... você?


Pois, é, Escrileitor, você fez tudo isso. Eu fiz.


Nunquinha! Eu não fiz nada disso. Impossível. Por que eu faria algo tão idiota?


Bom, quem sabe para... se proteger? Para se blindar. Para conseguir viver nesse mundo. Para evitar retrabalhos maçantes. Para lembrar, todos os dias, ao acordar, de aprendizados acumulados ao longo de toda uma vida.


Você inventou o Guardião. Porque você precisava que ele defendesse os limites das suas terras. Quando criança, a sua interioridade podia vir à tona com mais frequência (tomara), e as pessoas até achavam bonitinho. Uma menininha murmurando histórias, enquanto brinca com carrinhos, é ou não é fofo? Que tal um garotinho fingindo enfrentar monstros invisíveis, com uma espada-graveto?


Agora, imagine um marmanjo barbado, de trinta e cinco anos, cheio de tatuagens, falando sozinho no meio da rua? O que você pensa disso? O que o mundo pensa disso?


… E esse é só um exemplo.


Nós aprendemos, ao longo do tempo, a defender nossa interioridade. A não mostrá-la, não entregá-la de mão beijada, tão abertamente. Porque o mundo pode ser um lugar complicado. As pessoas – e os Guardiões do Limiar que existem em cada um de nós – podem ser bem cruéis. Pode ser perigoso andar sozinho por aí, à noite. Por isso, as pessoas se juntam em bandos.


E bandos precisam de algo que os identifique como grupo, como instituição coesa, valorosa. Então, bandos marcam suas peles, vestem uniformes. Bandos criam rotinas. Eles talham em pedras verdades absolutas, apontando para os seus o que está certo ou errado. Porque bandos zelam pelos seus irmãos. Bandos os defendem, acima de tudo. Bandos gritam, para que outros se afastem. Bandos atiram antes de perguntar. Porque bandos são covardes. Eles têm medo de espiar pelo buraco da fechadura, daquela porta estreita, escura. Bandos são volumosos, não cabem, juntos, na toca do coelho. Ah, você não tem feijões mágicos para todos? Então, ninguém vai pegar, nada feito, porque bando que é bando não se separa nunca, nem sob reza braba. Bandos se movem em marcha lenta, fazendo questão de amarrar os pés de cada integrante com correntes. Para protegê-los, só isso. Evitar que se percam, se desgarrem. E, olha só, veja que negoção da china: você paga apenas a metade do preço por essa corrente premium, porque nós somos tão poderosos, tão numerosos, que compramos em grandes quantidades, escalando a economia.


Pois é, os bandos. Eles estão por aí.


E o Guardião do Limiar adora uma gentalha.


Você não vai com a minha cara?


Não.


Agora, imagine você, Escrileitor, ainda criança pequerrucha, mirando inúmeras pernas cumpridas, andando em blocos por aí. Pior: essa gente grande está armada até os dentes, conta com escopetas, granadas, fuzis. Uma gente que você, muitas vezes, não consegue nem ver a silhueta direito, escondida atrás de armaduras e máscaras, pronta para a guerra. Mais do que isso: cada um parece carregar um Guarda-Costas truculento a tiracolo, com uma bazuca a laser engatilhada, espalhando o terror.


Me diga: o que você faria? Sairia gritando paz e amor por aí? Andaria pelado na rua? Escreveria um poema na linha do horizonte?


Tá doido?


Não, não dá. Eu não sei você, mas, antes de tudo, preciso aprender a sobreviver. Preciso conseguir zanzar em segurança. Preciso de ajuda. E, assim sendo, aproveito meus dotes criadores e criativos, e trato de fabricar um Guardião do Limiar para mim também.


Feito Tamagotchi, cuido dele. Sirvo minhas experiências como alimento para encorpá-lo. Converso com ele toda noite. Olho no espelho, pela manhã, e, pumba, ele me diz exatamente o que eu acho que preciso ouvir. O que preciso evitar. O que preciso fingir. O que preciso aceitar calado. Como lidar com Fulano, Beltrano e Josefina.


Logo o Guardião se torna meu melhor amigo. É o santo protetor dos inseguros e oprimidos. Ele me permite evitar a dor e correr atrás do prazer. Permite que organize meu dia a dia. Ele possibilita, inclusive, que eu encontre um bando para chamar de meu. Que me sinta aceito, querido. E, carambolas, mesmo se eu for excluído, renegado, ele está aqui comigo. Me apoiando. Me consolando. Me ajudando a abrir o pote de sorvete. Quebrando a barra de chocolate para mim.


Ele me diz que sou especial. Que meu dia ainda vai chegar.


Assim, não tarda a noite em que, diante de tanta sabedoria, coloco o Guardião do Limiar num pedestal. Clamo, com cada vez mais frequência, por sua presença. De tão confiável, elevo ele à condição de Conselheiro Real das minhas terras. Já não sou louco de mover uma palha sequer sem escutar o que ele tem para me dizer.


Entrego cada nova vivência para ele transformar num tijolinho, para ir empilhando, erguendo um muro. O muro que há de me separar das pessoas malvadas, que não sabem apreciar o valor dos tesouros que carrego aqui dentro. Promovo o Guardião a Mestre de Obras. Conquisto diplomas para enfeitar suas paredes. Encho ele de títulos. De armaduras. Deixo que se disfarce com todas as máscaras que consigo encontrar. Ofereço um selo inquestionável de otoridade sobre mim mesmo.


Ele é a minha polícia. O meu bombeiro. E os enfermeiros, médicos, professores, gurus, meus pais, o presidente, meu chefe e qualquer outra figura a quem devo respeito.


Fortão como só ele, às vezes me sinto meio travado, pouco flexível entre seus braços. Mas, tudo bem, pelo menos consigo me sentir confortável, seguro com ele por perto. Eu olho para aquele murão, cercando meu castelo, impedindo as pessoas de verem o quão estranho posso ser, e respiro aliviado.


... E a obra não para. Tudo é motivo para colocar mais um tijolinho, mais cimento, mais argamassa.


A certa altura, o muro fica tão grande, empinado, imponente, que alguns de nós já nem lembram o que existe do outro lado. Pouco importa que nosso castelo esteja às moscas, coberto por espessas teias de aranha. Pouco importa que nós mesmos já não consigamos adentrá-lo, uma vez que as passagens se tornaram raras e extremamente vigiadas. Nos contentamos em ficar ali, parados, vendo o Guardião-Mestre de Obras trabalhar. Admirando os tijolinhos. Nos sentimos orgulhosos do que fomos capazes de construir.


… E aí? Quer dizer que o Guardião é um vilão?


Não, né? Ele só está fazendo o trabalho dele. O trabalho que nós o responsabilizamos de fazer.



AH, AGORA VOCÊ QUER PASSAR?

Nós demos poder para o Guardião do Limiar. Nós fornecemos todo o estoque de tijolos. Assustados, abandonamos nossos tronos, corremos para longe, implorando para a criatura Frankenstein nos salvar. Oferecemos um contrato de exclusividade na prestação de serviços, assinamos cheques em branco, repassamos o controle das nossas bolsas de ações para ele. Tudo para impedir que qualquer um adentrasse nossos nobres salões, estragasse a festa e roubasse nossos tesouros.


… E, agora – agora, quando olhamos no espelho, espelho meu –, constatamos: nós somos qualquer um.


Nós somos Reis e Rainhas sem trono, sem poder ou controle sobre nossos próprios Reinos. Abrimos mão de tanto, por tão pouco, que nos sentimos envergonhados. Baixamos a cabeça e pedimos licença, torcendo para o Guardião ser bonzinho e nos deixar passar. Nem que seja para fazer uma visitinha rápida ao castelo. Só uma bisbilhotadinha, uma ida apertada ao banheiro.


Aonde você pensa que vai, frufrudeza?, ele nos pergunta, barrando a entrada.


E, caramba, como ele forte. Uma montanha de músculos. Um dragão feroz, que é bom à beça no que faz. Nunca arreda o pé. Raramente se deixa enganar e, quando acontece, aprende com os próprios erros, tratando de enfiar mais uns tijolinhos na Grande Muralha, reduzindo as aberturas.


Queria o quê, chuchuzinho?


Ah, sei lá... Fazer alguma coisa diferente, só para variar um pouco?


Hm, diferente? Muito bem, então vá assistir aquela série nova, que os algoritmos indicaram. Sim, esse é o tipo de novidade que o Guardião gosta. E nada de querer assistir filmes estranhos, meio sem pé nem cabeça. Nada de ler livros que te façam pensar muito, cansar os neurônios. Não, vai ver aquele novo episódio, cujo roteiro é mais do mesmo, disfarçado de novo. Vai ler o bestseller que conta a mesma história, mudando só alguns elementos. Vai mexer no celular, nas redes sociais, ler as notícias que reforçam a bolha, o "seu jeito" de ver o mundo. Mantenha-se entretido, escutando apenas aquilo que quer ouvir.


… Porque novidades verdadeiras não são bem-vindas.


Elas contrariam tudo o que nós aprendemos a ser, ao longo de toda uma vida.



Portanto, caro amigo e amiga, passar não será fácil (é preciso ser herói e heroína, não à toa). Se você quer muito se aventurar para além da Grande Muralha, adentrar o castelo e compartilhar seus tesouros com o mundo, terá de enfrentar um adversário proporcional a esse querer. Quanto mais vontade você tem de passar, de fazer algo acontecer, maior e melhor equipado estará o Guardião. Ele é um teste. O primeiro de todos. É a preguiça dos (pecados?) defeitos capitais – aliás, ele sabe ser qualquer um dos sete.



Se você realmente ama, se realmente está disposto a entregar sua vida à arte, o Guardião do Limiar lhe será uma companhia frequente. Uma barreira no meio do caminho. E pouco importa se você começou agora ou já é veterano: ele estará aí, disposto a qualquer coisa para que volte à sua vidinha ordinária.


Eu poderia passar a vida, inclusive, listando artimanhas elaboradas pelo meu Guardião. Resolvi parar, por ora, em trinta e duas (porque citar todas é impossível. Além do mais, trinta e dois é um número simbólico, que representa o todo). Serão trinta e duas armadilhas utilizadas pelo Mestre dos Disfarces.


… Ou eu comecei este texto pensando assim. Pensando que se tratavam de armadilhas apenas. Depois, me veio a percepção de que, ok, podem ser armadilhas, sim, mas também podem ser luzes no fim do túnel.


... Oi? Cuma?


Pois é...



O EREMITA


Imagine, agora, o Guardião em meio à noite mais escura. Ele descobre um livro que está dando o que falar, arrebentando de vender nas livrarias. É um bestseller e, portanto, ele se sente tranquilo em comprá-lo, porque supõe não existir nenhuma novidade ameaçadora pela frente. Só que o Guardião é impaciente. Não vai aguentar esperar o sol nascer. Guardião que é Guardião não espera nada nem ninguém! Ele quer tudo para ontem, quer devorar imediatamente aquelas páginas. O que ele faz, então? Inocentemente, acende uma tocha, uma vela, um abajur. E, pronto, agora ele consegue ver as letrinhas miúdas e se entreter noite adentro.


... E, pronto, agora nós conseguimos vê-lo, com bastante antecedência e contraste.


Assim, se nós conseguirmos que o Guardião do Limiar se interesse por algo, a ponto de acender um facho de luz, então poderemos utilizá-lo para guiar igualmente nossos passos. Ganhamos mais um pontinho luminoso como referência. Um mais próximo da linha do horizonte.


Teremos à disposição uma luz erguida pelo próprio Guardião, mostrando a localização, dinâmica e em tempo real, de onde ele está. Da parte da muralha que julga mais desprotegida neste exato instante, e, por isso mesmo, a escolhida para montar guarda.


... Nos esgueiraremos, então, sob o céu de estrelas, noite adentro, à espreita de uma oportunidade de ouro.


Porque, mesmo sendo tão bom em serviço, às vezes até o Guardião se entretém com seus próprios delírios de grandeza. Ele também tem seus vícios e uns desejos fora de hora. E, uma vez entretido, é fácil relaxar, encostar no muro, achando que o jogo está ganho, e nem ver o tempo passar. Não ver, talvez, uma dupla dinâmica -- eu e você, você e eu, Tim Maia! -- em ação. Aproveitando uma ligeira brecha, uma tola distração, para se infiltrar na fortaleza. Mirando a passagem, um buraquinho que seja, para, num golpe ninja, puf, correr pro abraço.


Pensando assim, de certa forma, o Guardião também está a servir de guia para que acessemos nossos Castelos e interioridades, não?


... Um sábio eremita, ao pé da montanha, compartilhando um cadinho de luz.


Portanto, Escrileitor, sejam armadilhas e/ou luminárias erguidas na escuridão, aqui vão trinta e duas maneiras com as quais me deparei para vasculhar mundos interiores.






(Como assim, cadê o resto do texto? Não acredito, achei que ainda leria as 32 maneiras vasculhadoras aqui! Você me enganou! Jogada de marketing barata, você pode estar pensando. E eu poderia lhe dar razão. Porque, num primeiro momento, pensei em colocar tudo num único post. Só que, como pôde perceber, isso daria muitas, muitas linhas mais. Quase um livro. Resolvi, então, expandir a questão para outro(s) post(s). Ao invés de mutilar as ideias, espremê-las para caber aqui, optei por deixar o espaço aberto, para que ocupem o quanto for preciso.


… Dessa forma, inclusive, consigo colocar este texto (e os seguintes) no mundo o quanto antes, ainda quentinho. Opção que diminui, inclusive, o risco deste que vós fala ser parado pelo Guardião do Limiar [contrabandear palavras lá para dentro é difícil, gente]. Escrever tudo de uma vez, ter que revisar, ficar me perguntando se as pessoas leriam tamanho texto, quilométrico, numa só sentada… Era muito material para o Guardião me brecar. Preferi não dar sopa para o azar.


Espero que me entenda).



Um blog para encontrar Escrileitores no mundo

© 2020 por Lucas M Esher

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